Curando sua criança interior

Jael Klein Coaracy

Jael Klein Coaracy

Nunca é tarde para viver uma infância feliz. Entre em contato com sua criança interior e converse com ela. Ouça o que ela está guardando até hoje. Suas dores, tristezas, medo, desejos. Cuide dela, ame-a e prometa que você vai cuidar dela, vai conduzi-la até o seu futuro e juntos, vão seguir a jornada na direção da felicidade.

O que a criança interior tem a ver com nossos relacionamentos? Tudo a ver. Quando na infância, não recebemos dos nossos pais ou outros cuidadores, amor, cuidados e reconhecimento que precisamos para crescermos saudáveis e confiantes, passamos a ter dúvidas sobre nosso valor, muitas vezes, acreditando que não somos merecedores de amor. Claro que não temos consciência disso, e como crianças, ainda não somos capazes de diferenciar o que é nosso do que vem do outro, de fora. Então, se ouvimos muitas críticas, se somos negligenciados emocionalmente, internalizamos as críticas e abusos emocionais como se fossem algo nosso. Em outras palavras, nossa autoestima, o modo como nos percebemos, passa a refletir o que recebemos de fora.

Embora cada criança que não teve cuidados físicos ou emocionais suficientemente bons, tenha sido ferida em diferentes graus, o fato é que quando nossa criança interior foi ferida, inevitavelmente, isso se refletirá na nossa auto-imagem e no modo como nos relacionamos com as outras pessoas.

Ao considerarmos que os relacionamentos amorosos representam os relacionamentos mais importantes e significativos da vida, aqueles em que compartilhamos nossa intimidade, em que nos mostramos mais vulneráveis, e que envolvem a capacidade de cada um de dar e de receber amor, é justamente na vida a dois que as feridas criança interior se manifestam mais intensamente.

Embora não possamos identificar sua presença continuamente, a criança ferida que existe em nós se manifesta, fazendo com que a dor do passado aflore, nos momentos em que algo toca uma área sensível em nós.  Resumindo, podemos ser lembrados da dor inesperadamente. E quase sempre, reagimos ao que está acontecendo no presente como se estivéssemos revivendo o passado.

Não é difícil imaginar o impacto que isso tem em nossos relacionamentos. Como adultos, espera-se que possamos lidar com dificuldades e conflitos com maturidade e inteligência emocional.  O fato é que enquanto carregarmos dentro de nós uma criança interior machucada, dificilmente conseguiremos viver plenamente a relação amorosa.

Nossa criança interior é parte da nossa psique, está incorporada a quem somos, com suas memórias, traumas, necessidades, dores. Em nossos relacionamentos, muito do que precisamos, fazemos ou nos recusamos a aceitar, está relacionado ao modo como aprendemos a nos defender da dor enquanto crianças, sem percebermos que essas estratégias de defesa não nos cabem mais.

A seguir, vamos entender diferentes formas com que a criança interior ferida atua em nossos relacionamentos.

Como as feridas de nossa criança interior se mostram?

Quantas vezes, repetimos os mesmos comportamentos e revivemos conflitos que nos são familiares em diferentes relacionamentos? 

A criança ferida, que não se sente amada e precisa se defender da dor pode buscar parceiros que não são capazes de se comprometerem autenticamente, como uma forma de se defender de um relacionamento verdadeiro. Assim, enquanto você acredita ser vítima da falta de sorte, ou da insensibilidade do outro, o que ocorre é que a criança em você com medo de sofrer, “escolhe” pessoas que não irão se comprometer em um relacionamento de fato.

Outra forma com que sua criança pode se manifestar e causar perturbações nos seus relacionamentos é ao criar um nível de expectativa irrealista em relação ao outro.

Numa tentativa de buscar reparação para a negligência, ou os maus-tratos emocionais que sofreu, ela pode levar você a esperar que o parceiro satisfaça todas suas vontades como uma forma de provar seu amor. Como isso é irreal e ninguém pode corresponder as nossas fantasias, a criança carente compromete relacionamentos.

Uma variação desse padrão é quando você não se comunica e espera que o parceiro, leia e entenda todos seus pensamentos, como se isso fosse uma demonstração de amor.

Necessidade de provas contínuas de amor, de controlar o que o outro faz, onde e com quem está quando não está com você, também pode ser a expressão da sua criança que teme ser abandonada novamente. Ou que precisa de infinitas demonstrações de amor para que não sinta o vazio e a dor de não sentir-se merecedora de ser amada.

Quando você se envolve e se mantém em relacionamentos abusivos, em que o outro a maltrata fisica e/ou emocionalmente, sua criança pode sentir-se culpada por não ser boa o bastante e acreditar que merece os maus tratos. Como não foi capaz de ter o amor dos pais ou dos adultos responsáveis, segue pela vida atraindo pessoas que a maltratam, como uma “confirmação” do seu pouco valor.

Existem aquelas pessoas que atacam o parceiro, fisica ou verbalmente, gritam, como se a criança ferida estivesse projetando toda a raiva e ressentimento por não ter sido cuidada como precisava e voltando esses sentimentos para a pessoa com quem se relaciona.

Brigas recorrentes sobre as mesmas questões também são um alerta. Quando você precisa ter sempre razão e se sente numa posição de superioridade em relação ao outro, ignorando e desvalorizando as motivações e necessidades do parceiro, também pode estar sendo direcionada por uma criança interior raivosa, que não tolera mais ser controlada.

Culpa, ciúmes, jogos e manipulações, exigências, chantagens emocionais, entrar no papel da vítima, do algoz, podem ser quadros motivados por nossa criança ferida.

Quando você sente angústia, pânico, tem um comportamento infantil e regressivo, por coisas que outros adultos no relacionamento parecem capazes de lidar facilmente, como alterações nos planos, indisponibilidade do parceiro devido ao trabalho etc, também sinalizam dificuldades vividas pela criança interior.

Quando você espera que o seu parceiro resolva todos seus problemas, se responbilize por sua vida e suas realizações, está projetando necessidades da criança insegura e ferida. Da mesma forma, vergonha, impaciência, drama, necessidade de transformar qualquer discordância em discussões e brigas, e muito mais sinalizam dificuldades de viver o relacionamento como um adulto responsável pela própria vida que sabe dar e receber amor com maturidade.

Quando você negligencia seus próprios sentimentos e necessidades e coloca o parceiro em um pedestal, tornando as necessidades dele mais importante, mesmo que em detrimento das suas.

Quando você mantém segredos e não se abre com o parceiro, sentindo grande dificuldade de ser você mesma, com sua historia e particularidades, você pode estar se escondendo, ou buscando despertar a curiosidade ou a preocupação do parceiro.

Quando você tem obsessão por estar em um relacionamento, como se sua identidade, ou sua sobrevivência dependesse de ter alguém ao seu lado.

Quando você se ressente do parceiro ter uma vida própria, ter hobbies, amigos e outra pessoas que ocupam seu tempo. Quando você usa o sexo como um substituto de amor e de intimidade na relação.

Quando você se mantém na solidão dentro do relacionamento, como uma forma de se defender da intimidade ou um desejo de punir o outro por algo que nem você sabe o que é.

Quando nos identificamos com um mais dos aspectos mencionados acima, dependendo do grau de intensidade e frequencia com que ocorrem, podemos identificar aspectos feridos da nossa criança interior e fazer algo a respeito.

A boa notícia é que podemos curar nossa criança interior e dar a ela o que precisa, mesmo tanto tempo depois. Nunca é tarde para ter uma infância feliz.

Conectar-se com a criança interior é primeiro passo para a cura.

Para muitas pessoas, entrar em contato com a sua criança interior parece totalmente fora do razoável, como se não acreditassem na existência de uma criança ferida presente nelas, embora possam identificar as consequências da sua existência ao longo da vida.

A não ser que você reconheça essa criança a pedir amor e aceitação, que ainda grita dentro do seu peito, não conseguirá ouvi-la, compreender suas necessidades, e do seu lugar de adulto, dar a ela o que ela precisa para superar a dor.

De nada adiantará continuar lutando com seus medos, inseguranças, e outras emoções devastadoras que agitam a superfície do seu ser se não explorar a ponta de iceberg e for mais fundo, fazendo um mergulho às origens desses sentimentos.

Conectar-se com o menino ou a menininha dentro de você é como a mágica do processo de cura acontece. Sem essa consciência do que é aparentemente invisível, continuamos a mercê das correntes emocionais sem controle sobre elas.

Thich Nhat Hanh, um sábio budista, disse que dentro de cada um de nós existe uma criança sofrendo. E que para nos protegermos do sofrimento, tentamos esquecer a dor, embora na maioria das vezes, quando sentimos uma dor profunda, é um chamado da nossa criança interior ferida a nos chamar. Esquecer a dor resulta em mais dor, diz ele.

Somente quando tratamos e curamos as feridas que ela traz nos tornamos fortes emocionalmente e capazes de amar a nós mesmos e amar outra pessoa. É através da cura da dor que vivia em nós que podemos deixar o passado para trás e viver o presente, onde a vida acontece agora.

Como praticar e curar a dor da criança interior

O trabalho com sua criança interior é um passo fundamental para superar e curar as feridas de uma infância difícil e/ou traumática.

A dor que resulta de ter sido sufocada, ignorada, desvalorizada enquanto criança, de não ter recebido amor e atenção suficientes afetam seu subconsciente e se incorporam a quem você pensa que é.

  • Escreva sobre a dor da criança ferida, sobre seus sentimentos. Deixe a escrita fluir, ouvindo o que ela diz, acolhendo sua expressão, sem julgar se faz ou não sentido, apenas acolhendo o que vier. Dê voz a sua dor e deixe que ela se expresse, deixe fluir e vá apenas registrando o ela diz.  
  • Converse com ela. Diga a ela que a reconhece e sente muito por tudo que ela precisou passar para chegar até o dia de hoje. Expresse seu amor por ela e diga que a entende e que você agora vai cuidar dela e atender suas necessides. Peça que ela abra o coração para você, pois você está aí para acolhê-la.  Converse com ela: mostre que está disposta a fazer o que for necessário para ajudá-la a curar sua dor, que ela pode contar com você, que não importa o que ela sentir ou expressar, você a ama incondicionalmente e jamais a abandonará.

O que podemos fazer para ajudar nossa criança interior a ter relacionamentos mais felizes?

  • Ter consciência do que acontece em nosso interior quando reagimos às situações é o que nos possibilita mudar o modo como nos sentimos em relação ao parceiro, aos eventos e o que quer que aconteça à  nossa volta.
  • Ao sentir que o que o parceiro, ou outra pessoa disse ou fez, a incomodou profundamente, ou despertou uma reação emocional que a levou a se distanciar emocionalmente, ter uma explosão de raiva, dar início a uma discussão sem fim,  ou outro tipo de comportamento que não contribui para o seu bem estar, pare, respire e pense. Pergunte-se o que, em você fez com que se sentisse dessa maneira. Pare por um momento, escolha um lugar quieto e entre em contato com sua criança interior.  O que ela está sentindo? Ouça o que ela diz e converse com ela. Faça com que sua criança sinta que ela não precisa mais usar os mesmos mecanismos de defesa de antes, porque agora você está aqui para ela.
  • Quando você ficar extremamente magoada com o que o parceiro, ou uma pessoa próxima fizer, procure se olhar como se estivesse do lado fora, observe seus pensamentos, as emoções que se passam dentro de você e faça uma conexão com a criança que habita em você. Quantos anos ela tem, por que ficou tão afetada com o que quer que tenha acontecido? Ao colocar em pensamentos emoções não verbalizadas, você poderá fazer conexões entre o que se passou com memórias da infância. Assim, será mais fácil perceber que o passado não está se repetindo, apenas um evento “apertou um botão” interno e fez com que você se sentisse como no tempo em que era criança e não tinha recursos emocionais para responder de forma diferente. Pergunte-se: como eu, adulta, posso responder diferente à situação atual? Ao fazer essa separação entre o passado e o presente, você pode acessar o seu lado mais maduro e ajudá-lo a reagir diferente, mostrando à sua criança novas formas de se comportar. Mais importante, aprendendo que o que aconteceu antes não é o que acontece agora.
  • Se você perceber que tem uma tendência a sempre concordar com tudo o que o parceiro quer, mesmo contra seu desejo, por medo de desagradar, considere o quanto a criança interior pode ter aprendido a fazer assim por medo de perder o amor das pessoas importantes em sua vida. Mesmo adulta, independente, muitas pessoas temem, inconscientemente, perder o amor de quem amam se desagradarem o outro, seja por uma opinião diferente, uma preferência, ou um desejo que pode não ser o mesmo da outra pessoa. Tome um tempo para você e converse com sua criança interior. Deixe que ela expresse o medo de perder aqueles que ama, converse com ela e prometa que irá sempre amá-la e honrá-la, não importa o que aconteça. Mostre a ela que ela pode e merece expressar seus desejos e preferências, que não precisa concordar com tudo para ser amada, pois já é perfeita como é, e merece ser amada por ser quem é.
  • Mesmo que sua vida seja ocupada, procure reservar um tempo só para você, tempo para brincar, fazer coisas só por prazer, experimentar, se divertir com a sua criança. O que você gostava de fazer quando menina e nunca mais fez? Pintar, fazer colagens,  cantar, fazer esculturas de areia, montar quebra-cabeças, o quê? Divirta-se com sua criança interior, ouça sua risada, aproveite o tempo com ela, nutrindo essa união a menina que você foi e a mulher que é hoje
  • Medite. Não há dúvidas dos benefícios da meditação. Meditar melhora a saúde, traz bem-estar, melhora a qualidade do sono, ajuda a manter a boa disposição no dia-a-dia e favorece o autoconhecimento. Meditar é um caminho para se conectar com sua criança interior e deixar que ela suba à superfície da sua consciência. Tente começar inspirando e dizendo: “ estou voltando para minha criança interior”. Expire dizendo: “Eu cuido da minha criança interior”. Deixe que a meditação a guie por territórios inexplorados do seu mundo interno. Siga o fluxo, não tente controlar nada, apenas observe o que se passa e quando sentir que é o momento, passe tempo com sua criança e sorria para ela. Agradeça-a por   tê-la trazido até aqui, não importa o que tenha acontecido antes.  
  • Sente-se em um lugar aconchegante da sua casa e espalhe suas fotos de criança. Ou, se estiverem reunidas em um álbum,  leve-o para junto de você e visite todas as fotos. Tente lembrar das memórias que elas evocam. Muitas vezes, lembramos da sensação de estarmos vestindo algo, do tempo lá fora, ou de outras particularidades do momento em que a fotografia foi tirada. Converse com a criança diante de você. Fale com ela, ouça o que ela diz, se lembrar o que estava vivendo naquele momento, fale sobre isso. Você pode desenhar no papel, escrever legendas, declarações de amor à sua criança, e quem sabe, fazer um novo álbum que reflita a sua nova criança interior, amada, protegida e curada das suas dores.
  • Algumas pessoas relatam ouvir respostas da sua criança interior durante esse processo. Outras, percebem o processo de cura ocorrendo. Existem também os que ouvem da criança que ela precisa ir mais fundo, que gostaria de toda ajuda possível. Nesse casos, procurar um processo terapêutico com um profissional adequado pode fazer toda diferença.
  • Caso estiver fazendo o seu melhor e sentir que não está conseguindo, busque ajuda. Profissionais competentes podem ajudá-la a percorrer uma jornada psicoterapêutica que a levará à cura da sua criança ferida.

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